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colinatech 03 jun. 2026 6 min de leitura

Santas Casas se juntam em pesquisa clínica

Santas Casas se juntam em pesquisa clínica

Projeto, liderado pelo médico Nelson Teich, atrai farmacêuticas em cenário de mercado regulado no Brasil

Quatro meses após a regulamentação de pesquisas clínicas no Brasil, as Santas Casas e hospitais filantrópicos públicos estão se juntando para realizar esses estudos científicos. No país, há 1,8 mil desses estabelecimentos de saúde que, conjuntamente, respondem por 62% das cirurgias de alta complexidade e 50% daquelas de média dificuldade realizadas na rede pública de saúde.

Considerando uma visão moderada com adoção gradual da nova legislação, a expectativa é que a receita com pesquisas clínicas nas Santas Casas e hospitais filantrópicos praticamente dobre em quatro anos. Em 2026, estima-se algo entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2,25 bilhões, saltando para R$ 3,8 bilhões a R$ 4,7 bilhões em 2030, segundo estimativas da consultoria Ekantika.

O projeto é liderado pelo médico oncologista Nelson Teich, ministro da Saúde em 2020, em parceria com a Ekantika, que está usando sua plataforma de dados e inteligência artificial nas análises.

“É um caminho para as Santas Casas terem uma injeção de recurso novo diante das dificuldades históricas de repasses públicos. Essas instituições filantrópicas são conhecidas pelo atendimento de alta complexidade”, disse Teich.

Um trabalho conjunto das Santas Casas tem grande valor para a pesquisa clínica porque esses hospitais reúnem pacientes do país todo- o Brasil tem a maior diversidade genética do mundo – e os atendimentos médicos são casos de maior complexidade, alvo da indústria farmacêutica que patrocina de 78% a 86% dos ensaios clínicos conduzidos no país.

Segundo projeção da Falconi, que faz consultoria à Confederação das Santas Casas (CMB), num ambiente de regulação implementada, é possível entrada mensal de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões, por hospital. “Além de injeção de recurso novo, é uma oportunidade para redução de custos porque as farmacêuticas arcam com as despesas dos pacientes selecionados para pesquisa clínica. É interessante também ao SUS e às operadoras” disse Vinicius Brum, vice-presidente de operações da Falconi.

Hoje, as Santas Casas têm um passivo tributário de cerca de R$ 15 bilhões e empréstimos bancários com garantia do Fundo Nacional da Saúde (gestor financeiro do SUS) somam quase R$ 6 bilhões. Esse passivo financeiro vem de cerca de 850 das 1,8 mil Santas Casas.

A tabela SUS arca com apenas 65% dos custos dos procedimentos médicos. Esse déficit é coberto com atendimento a usuários com planos de saúde e doações. Porém, muitos desses hospitais atendem exclusivamente pacientes da rede pública, o que gera um passivo recorrente. Em algumas localidades, como São Paulo, há repasses extras dos governos estadual e municipal que ajudam a equilibrar as contas.

Segundo Mario Cesar Homsi Bernardes, superintendente da Confederação das Santa Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB), o projeto está em fase piloto com a participação de 35 Santas Casas das regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. No Norte, há negociações em andamento.

“É uma grande oportunidade, traz benefícios para todas as pontas. Médicos de referência vão se interessar, há introdução de novas tecnologias, o paciente é beneficiado e traz um recurso significativo. Isso é possível ser constatado porque temos Santas Casas que já atuam com pesquisa clínica”, disse Bernardes. Hoje, há 16 parcerias de hospitais e farmacêuticas envolvendo 179 ensaios clínicos, segundo a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa).

A Santa Casa de Porto Alegre apurou uma receita de R$ 35 milhões com pesquisa clínica, em 2025. A unidade faz pesquisa clínica há duas décadas e participou dos estudos do Trastuzumab e Pertuzumab, anticorpos monoclonais de um medicamento da Roche para câncer de mama. A farmacêutica já desenvolveu 14 estudos focados nesse tipo de tratamento oncológico com a instituição gaúcha.

“Atendemos 500 pacientes por mês. Podem ser do SUS, convênio médico e de outras regiões do país, desde que enquadrados nos requisitos da pesquisa, que não são simples”, explicou a médica Katsuki Tiscoski, oncologista responsável pelo centro de pesquisa da Santa Casa de Porto Alegre.

“A presença em centros regionais como a Santa Casa de Porto Alegre integra a estratégia de descentralização da pesquisa de alta complexidade no país”, afirma Waleuska Spiess, líder de pesquisas clínicas da Roche Farma Brasil.

Pacientes que participam dos estudos têm os custos do tratamentos arcados pela farmacêutica. Após o tratamento, o paciente tem direito a receber a medicação por mais cinco anos. Antes, não havia essa limitação de prazo, o que desestimulava as farmacêuticas a investir diante do risco de passivo futuro.

“O Brasil perdeu a chance de incluir 700 mil pacientes em pesquisa clínica, entre 2022 e 2025, por falta de regulação”, disse Renato Porto, presidente da Interfarma. Hoje, o Brasil responde por menos de 3% dos estudos no mundo.

O principal atrativo do Brasil é o fato de sua população ter a maior diversidade genética, segundo pesquisa da USP divulgada pela revista científica Science, em 2025. Com a miscigenação, as farmacêuticas podem concentrar os estudos no país. Hoje, os ensaios são feitos principalmente na Europa e nos EUA, que têm uma população predominantemente branca.

A Santa Casa de São José dos Campos (SP) iniciou as pesquisas clínicas há cerca de seis meses e fechou contrato com duas farmacêuticas para estudos de câncer de mama e ovário e epidermólise bolhosa, doença genética rara que afeta, principalmente, crianças. “Há uma série de análises das instalações, procedimentos, corpo clínico do centro de pesquisa que é feito pelas farmas. É bem rigoroso”, disse Danilo Stanzani, diretor do centro de pesquisa clínica da Santa Casa de São José dos Campos.

Hoje, das 1,8 mil Santas Casas e hospitais públicos, poucos estão enquadrados às exigências dos estudos científicos. Além disso, há receio dos brasileiros em participar dos testes. “Com a pandemia e os estudos em torno da vacina para covid-19, houve uma redução no preconceito, na visão de que os pacientes são cobaias, mas ainda precisamos difundir mais a pesquisa clínica para que não haja essa percepção”, disse a oncologista Taiana Marina, da Santa Casa de São José dos Campos.

Segundo Rodrigo Sato, sócio da Ekantika, a pesquisa clínica no Brasil é extremamente concentrada, com 54% dos centros de pesquisa no Sudeste e 25%, no Sul. A outra fatia de 21% engloba Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As áreas terapêuticas mais estudadas são oncologia (30,6%), doenças infecciosas (15,3%), distúrbios metabólicos (9,2%), cardiovascular (9,6%) e sistema nervoso central (8%).